PEDAGOGIA DA CACETADA
"Tinha uma orientada que, além de cabeça dura,
ela era extremamente teimosa. Na fase de revisão da sua dissertação, depois de
diversas tentativas frustradas de fazê-la aceitar sugestões, resolvi pregar uma
peça, que hoje reconheço de extremo mau gosto.
Antes da enésima reunião para discutir o texto,
coloquei no lixo o rascunho que ela havia deixado. Quando da reunião, após recebê-la
cortesmente, simulei uma procura do texto. Procura daqui, procura dali, revira
papelada sobre a mesa e na estante, movimentos acompanhados da expressão
"diabos, onde coloquei sua dissertação?" e outras similares.
Após alguns minutos, insuportáveis para a aluna,
falei: "Eureka! Lembrei..." e, voltando-me para a lateral da mesa,
levantei o cesto de lixo e, transmitindo alívio, retirei o texto e coloquei
sobre a mesa.
Entre surpresa e choque, a "coitada" caiu
no choro. E agora? Pensei, também surpreso e chocado com a inesperada reação
dela. Num estalo, decidi pelo tudo ou nada. Falei: "Pode se retirar, não
aceito choradeira. Quando passar a crise de choro, você volta".
Incontinente, ela se retirou e bateu a porta.
Permaneci filosofando sobre o acerto ou erro da
"estrambótica pedagogia".Após cerca de 15 minutos, a aluna bateu na
porta e abriu ao meu comando: "Pode entrar". De pronto, perguntei:
"Parou de chorar?". Ao aceno afirmativo dela, falei: "Vamos
continuar". Ela se acomodou e, daí em diante, conseguimos nos entender
maravilhosamente bem até a brilhante defesa de sua dissertação."
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