DATAS GRATAS

O dia era 13 de setembro de 1981...

Beirando os 85 anos, reservo-me o direito de contar histórias. Entre as inesquecíveis estão aquelas ligadas a datas gratas: o ingresso na ESALQ, o casamento, o nascimento dos filhos e dos netos, a contratação como professor da USP, a chefia do Departamento, a Prefeitura do Campus, a diretoria do IPEF, a aposentadoria...

Há pessoas que passam por nossa vida e deixam lembranças inesquecíveis. Algumas, além das lembranças, deixam marcas que transformam nossa maneira de viver.

E o 13 de setembro? “Senta que lá vem história”, como dizia o bordão do programa infantil Rá-Tim-Bum, da TV Cultura.

Em 1967, fui admitido como professor da então Cadeira de Silvicultura para colaborar com o mestre Ronaldo Algodoal Guedes Pereira na implantação de uma nova área: Química da Madeira e Celulose. Montados os laboratórios, começamos a receber estagiários entre os alunos de Agronomia.

Por volta de 1974, contando com três funcionários e o reforço dos estagiários e bolsistas de Engenharia Florestal, a área já havia crescido tanto que idealizamos e lançamos, extraoficialmente, a primeira seção do então Departamento de Silvicultura: a Seção de Química, Celulose e Papel, hoje Laboratório de Química, Celulose e Energia. Apesar da informalidade, recebemos as bênçãos do mestre Helládio e o apoio financeiro do IPEF.

Com a expansão das atividades, tornou-se difícil depender da secretaria do Departamento, geograficamente um tanto distante. Precisávamos de um telefone — emprestei um dos meus — e de uma secretária, sonho quase impossível na época. Corria o ano de 1977.

A solução? Admitir uma estagiária administrativa, a exemplo da experiência bem-sucedida com os estagiários da área técnica da Escola.

Espalhada a notícia, uma funcionária do IPEF indicou uma colega do curso de Secretariado do Colégio Dom Bosco. Recebemos a candidata: uma jovem de 17 anos, extremamente educada e simpática.

— Raquel Degaspari. Prazer.

Aprovada de imediato, começou como bolsista do IPEF em setembro de 1977.

Acolhida pelo corpo docente, técnico e administrativo, Raquel iniciava sua trajetória na ESALQ. Sua dedicação e seu empenho logo se fizeram notar: em junho de 1978, foi admitida oficialmente como funcionária, permanecendo como secretária de nossa área por cerca de oito anos.

Profundamente religiosa e pontualíssima, todos os dias datilografava um versículo da Bíblia e deixava o bilhetinho em nossa mesa, como convite à meditação.

Naquela época, eu era fumante inveterado. E como as coisas mudam! Dava aulas com o cigarro aceso e, às vezes, na distração, quase fumava o giz e escrevia na lousa com o cigarro. Toda a família — e incluo aqui a Raquel — se incomodava com o hábito, tanto pela preocupação com minha saúde quanto pelo cheiro que impregnava os ambientes.

É aqui que entra a data grata: 13 de setembro de 1981, às vésperas de completar 40 anos. Graças aos questionamentos e à insistência de Raquel, abandonei o cigarro pela enésima vez — e, finalmente, em definitivo. Uma proeza que nem meus pais haviam conseguido. Minha eterna gratidão.

Com o tempo, o reconhecimento de seu trabalho ultrapassou os muros do Departamento. Para satisfação de todos nós, embora a mudança lhe trouxesse apreensão, chegou o convite para atuar na então Seção de Alunos.

Em maio de 1985, despedimo-nos de nossa secretária, mas não da amizade que ali havia nascido. Em 1989, Raquel assumiu a chefia da Seção, coroando uma trajetória de dedicação à Escola.

Entre tantas datas gratas, aquele 13 de setembro tem, portanto, um lugar especial. Ele me recorda que uma pessoa pode transformar nossa vida com gestos simples, cuidado e perseverança. Raquel foi muito mais do que uma secretária competente: tornou-se parte de nossa família e deixou em minha história uma marca que o tempo não apaga.

Se hoje, beirando os 85 anos, ainda tenho histórias para contar, conto esta com especial carinho. À Raquel, que soube transformar sua preocupação em insistência e sua insistência em um bem duradouro, minha amizade e minha eterna gratidão.

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