EXPERIÊNCIA REVIVIDA
Entrei como calouro na ESALQ em 1962. Logo no
primeiro mês, fui admitido como estagiário na Cadeira de Química Analítica e
orientado por seu catedrático, Prof. Renato Amilcare Catani. A função de um
estagiário, na época, resumia-se a fazer algumas experiências próprias como
treinamento, colaborar com os funcionários no preparo das aulas práticas do
curso de agronomia e com os professores em seus trabalhos de pesquisa para
publicação ou defesa de títulos da carreira universitária.
No fim do segundo para o início do terceiro ano, sob
orientação, desenvolvi praticamente sozinho um trabalho comparando dois métodos
de determinação do carbono em solos. Tendo me dedicado à revisão bibliográfica
e aos rascunhos do texto sobre material e métodos, tive a satisfação de ser
coautor do trabalho, conforme citação a seguir:
CATANI, R.A.; BITTENCOURT, V.C. & BARRICHELO,
L.E.G. Estado atual da determinação do carbono no solo: I. Em solos contendo de
0,2 a 4,0% de carbono. Anais da E.S.A. "Luiz de Queiroz", Piracicaba,
vol. XXI, 1964. p. 116-25.
A satisfação foi do mesmo tamanho da surpresa, na
época, em aparecer como terceiro autor. Talvez a presença de dois professores
encabeçando o trabalho se justificasse para uma maior projeção do mesmo, em vez
de um desconhecido acadêmico.
Para minha carreira futura de professor e
orientador, o episódio foi marcante e determinante, pois em todos os trabalhos
científicos dos meus alunos e orientados, nunca procurei justificar algo
semelhante. Em todos, sem exceção, sempre fui ausente e, no máximo, coautor.
Questão de princípios!
Como o mundo é pequeno! Quando professor já titulado
na área da tecnologia de celulose e papel, fui convidado como coorientador de
um pós-graduando da UNICAMP por um colega da engenharia química. O trabalho
envolvia aspectos da deslignificação da madeira e métodos analíticos para
acompanhar essa operação. Contatado pelo colega e procurado pelo acadêmico,
acompanhei o trabalho colaborando dentro das minhas possibilidades e
competência.
Quando da defesa da dissertação, participei da banca
e o desempenho do mestrando foi excelente. Meses depois, recebi uma cordial
visita do novo Mestre, que me procurou aborrecido, pois o trabalho científico
derivado da dissertação tinha sido publicado tendo como primeiro autor seu ex-orientador.
Dessa vez, o professor tinha sido claro demais,
afirmando que aparecia em primeiro lugar para valorizar o trabalho em função de
seu status e currículo. Não achei palavras para consolá-lo, além de relatar que
tinha sido testemunha e vítima de algo parecido quando acadêmico de agronomia.
Pano rápido.
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