SEM MENTIRAS

Quando criamos a Seção de Química, Celulose e Papel (hoje Laboratório de Química, Celulose e Energia), junto à Cadeira de Silvicultura (hoje Departamento de Ciências Florestais) da ESALQ, sentimos, logo no início das atividades, a necessidade de apoio administrativo.

Diante das dificuldades para contratar uma secretária, decidimos, por intermédio do IPEF, admitir uma estagiária do ensino médio, a exemplo do que já fazíamos com estudantes de cursos técnicos de Química.

Além dos laboratórios, a Seção dispunha de uma sala para dois professores e de uma antessala, organizada como uma pequena secretaria. Havia uma única linha telefônica, com aparelhos instalados nos três ambientes. Era procedimento normal que a secretária atendesse às chamadas e as transferisse para um de nós.

Certo dia, ela bateu à minha porta anunciando o telefonema de uma pessoa com quem eu não desejava falar. Demonstrei isso de forma bastante enfática. Diante da minha recusa, perguntou como deveria justificar ao interlocutor o fato de eu não atender. Afirmou, inclusive, já ter dito que eu estava na sala.

Sugeri então que dissesse ter se enganado e que, na verdade, eu havia saído. Ela respondeu, firme e categórica:

— Desculpe-me, professor, mas eu não falo mentira.

Irritado, retruquei que aquele era um problema dela e reafirmei que não atenderia de maneira alguma.

Ela fechou a porta, visivelmente contrariada, e a sala mergulhou em absoluto silêncio.

Cerca de quinze minutos depois, intrigado com a demora, chamei-a e perguntei como havia resolvido a situação.

Com a maior tranquilidade, respondeu:

— Pedi a uma colega que atendesse o telefonema.

Sorriu discretamente. E eu também. Afinal, ela encontrara uma solução elegante para o problema e, sobretudo, permanecera fiel ao seu princípio: realmente, não havia contado uma mentira.

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